domingo, 20 de fevereiro de 2011

O mistério da morte cristã

Nestes seis meses após a morte de minha filha Raquel, morte cheia de angústia e sofrimento causados pelo câncer que lhe invadiu a coluna vertebral, o cérebro e o sistema linfático, tenho meditado quase que diariamente nesse doloroso mistério que é a morte, principalmente a daqueles e daquelas que vivem conscientemente uma vida de fé.

É verdade que a morte cristã, como a de minha filha, se acompanha frequentemente de angústia, mas esta angústia nada tem a ver com o medo vil que sente quase sempre o arreligioso, o agnóstico ou o ateu, diante do imponderável que os aguarda. A angústia do cristão moribundo é apenas a angústia mística, o pressentimento, o temor ante a magnitude do mistério de Deus; é o frêmito de todo o seu ser à beira dessa mudança radical que dissolve e recompõe o corpo de pecado para o transfigurar em corpo de glória na ressurreição; é abandono humano, solidão, deserto de Deus; porém, no seio desse deserto, Deus fala, além da noite dos sentidos e do espírito. Por muito profunda que possa ser a angústia da morte, para o cristão ela é acompanhada por uma alegria que excede o sentimento.

As mortes cristãs, além da angústia, são doces, porém de uma doçura diferente da serenidade estóica dos arreligiosos, dos agnósticos e dos ateus. Essas angústias são aceitas às vezes desejadas, como no caso dos santos que pediam a Deus para sofrer cada vez mais, a fim de salvar os outros, porque aqui se encontra o mistério da Páscoa: embora a morte cristã, a morte de Jesus de Nazaré, pareçam humanamente falando, trevas e angústias, são também alegria; e se essa alegria é aparentemente idêntica à angustia, idêntica à agonia de suor e sangue, não é porque seja ilusão, mas porque é sobre-humana, ultrapassando todo o entendimento. É uma alegria sobrenatural, divina, um dom de Deus. O cristão e a cristã, por sua fé, têm a certeza da vitória de Cristo sobre a morte; as angústias que eles experimentam são as de Jesus na cruz; elas resplandecem de alegria em meio aos sofrimentos e às trevas.

No livro de Georges Bernanos, "Diário de um Pároco de Aldeia", que acabo de ler pela terceira ou quarta vez, seu personagem principal, o vigário da aldeia, está consciente desta verdade, ele que pronuncia, ao morrer, uma das mais belas frases que encontrei na literatura do século passado: Tudo é Graça!

A razão teológica deste fato é que, na angústia da morte cristã, há a experiência do deserto, o deserto bíblico que todo homem e mulher devem atravessar para se unirem a Jesus no Calvário. No Calvário, porém, está a ressurreição, cujos primeiros vislumbres a alma cristã recebe já nos umbrais da morte.

Na morte cristã é certo que pode haver vestígios de um medo, de um pânico da sensibilidade exaltada; mas não há apenas isso. Embora esse medo exista, só atinge um corpo já quase abandonado de todo, entregue aos reflexos naturais da matéria que se decompõe.

Digo que esse medo pode existir, mas sob uma alegria misteriosa, sob misteriosa serenidade. Conheceu-a muito bem minha filha Raquel, quando murmurava na sua longa e dolorosa agonia: Meu Deus, seja feita a Vossa vontade. Ela dizia: Vossa vontade, pensando em Deus e não se queixando das atrozes dores que a atormentavam.

É pela sua morte sofrida, mas profundamente cristã que tenho absoluta certeza de que hoje ela descansa em paz no Reino de Deus, prometido a ela e a todos nós por Jesus de Nazaré.

Professor Aroldo 

11 comentários:

  1. Meus sentimentos, Professor Aroldo.
    Fiquemos em Paz na certeza do futuro reencontro onde poderemos abraçar a todos.
    Paz Profunda,
    Jorge Purgly

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  2. Puxa as palavras de seu Pai...atingiram bem fundo minha mente...perdi a alguns anos meu irmão com câncer ,que se localizava no cérebro ...ele tinha apenas 36 anos...mas acredito que esta em PAZ ...foi uma grande pessoa e faz muita falta...abraços a familia de vcs e continuem na Fé ,porque Deus existe sim e todos temos nosso caminho a seguir...meu irmão e sua irmã ja cumpriram a deles...fuiiiiiiiii

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  3. Gostei do texto e até vou postar em meu blog, citando a fonte é Claro!!
    Essa é a diferença entre os que morrem com Cristo e os que morrem sem Deus. Um texto certamente inspirado na Cruz !!

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  4. não quero incomodar sua dor!
    acho que diante da morte todas as vãs filosofias se calam, então nada que eu vá dizer pra consolar pode suprir a dor e falta que agora sentes!
    meu sinto muito é sincero...

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  5. Muito triste este relato. espero que Deus os ilumine!
    Abraços
    Roberto

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  6. Meus Sentimentos

    Oque percebo, que Deus com sua infinita Miseric´rdia dispensou do alto do Céu , a virtude e sabedoria para entender a Morte Cristã e para mim um Privilégio compartilhar contigo esta Sabedoria dada Gratuitamente a Tí...

    Abraços

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  7. Olá meu querido irmão! acabei de ler o texto acima e, consternado pela dor que o aflige, rogo a Deus que o supra da porção da sua graça, sustentando suas forças para atravessar este momento humanamente dificil. Que consolação gloriosa é saber, que um dia estaremos todos juntos na gloria eterna, depois de vencido este vale de dor. Fique com Deus amado irmão

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  8. Paz Amado!

    Meus sentimentos! Agradeço pelo post!

    Um Abraço!

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  9. Muito bem explicado a dissertação do texto e muito esclarecedor sobre a nossa fé.
    Graças a Deus tenho fé em Jesus e sei que ele com certeza acompanha seus irmãos na nossa derradeira hora!Muito profundo também falar da alegria.Pois é a alegria que nos espera diante de nosso irmão Jesus.Sei também que o sr está sendo reconfortado por ele.
    Que o sr Aroldo é uma pessoa iluminada.
    Rosana

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  10. Em fevereiro, tambem acompanhei essa doença, com meu cunhado, que não resistiu e faleceu, teve o cancêr no peritoneu (que é uma membrana que envolve a zona do abdómen), enfim....
    Eu perguntei-lhe se ele aceitava Jesus como seu unico e suficiente salvador, ele aceitou, tenho fé que aceitou de coração, e seu nome foi escrito no livro da vida!

    Que o Espirito Santo de Deus a cada dia renova as suas forças e te console. Paz vaso.

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  11. Querido Professor, sinto-me triste, pelo que aconteceu, mas a certeza de que estaremos juntos na ressurreição, vamos nos abraçar novamente e pela divina misericórdia de Nosso Pai do Céu, viveremos juntos no reino de Deus, onde haverá a felicidade eterna.
    Ela está na paz de Deus, pelo seu relato ela estava completamente nos braços de Deus. Quer lugar melhor?
    Que o amor e a paz de Deus esteja com o senhor e sua esposa.

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