sábado, 5 de fevereiro de 2011

O que é um arminiano?

A pergunta, “o que é um arminiano?” respondida por um amante da graça livre
Por John Wesley

1. Se alguém diz “esse homem é um arminiano”, o efeito que estas palavras produzem nos ouvintes é o mesmo que se tivesse dito “esse cão é raivoso”. Sentem pânico e fogem dele a toda velocidade, e não se deteriam a menos que seja para atirar pedras no temível e perigoso animal.

2. Quanto mais incompreensível é a palavra, melhor. As pessoas que recebem esta designação não sabem o que fazer: como não sabem o que quer dizer, não estão em condições de se defenderem ou de demonstrar que são inocentes das acusações contrárias. Não é fácil acabar com preconceitos enraizados em pessoas que não sabem outra coisa, exceto que se trata de “algo muito ruim” ou de algo que representa “todo o mau”.

3. Portanto, esclarecer o significado desta terminologia pode ser útil para muitos. Aos que com demasiada facilidade aplicam o termo aos outros, para impedir que utilizem termos cujo significado desconhecem; aos ouvintes, para que não sejam enganados por pessoas que não sabem o que dizem; e aqueles que recebem a designação de “arminianos”, para que saibam como se defender.

4. Em primeiro lugar, creio ser necessário esclarecer que muitos confundem “arminiano” com “ariano”. Porém, trata-se de algo completamente diferente; não há semelhança entre um e outro. Um ariano é alguém que nega a divindade de Cristo. Creio que não há necessidade de esclarecer que nos referimos a sua filiação com o supremo, eterno Deus, já que não há outro Deus fora dele (a menos que se decida fazer dois Deuses: um grande e um pequeno). No entanto, ninguém jamais creu com maior firmeza, ou afirmou com maior convicção, na divindade de Cristo, que muitos dos assim chamados arminianos, e assim seguem fazendo até o dia de hoje. Portanto, o arminianismo (seja o que for) é completamente diferente do arianismo.

5. A origem da palavra remonta a Jacó Harmens, em latim, Jacobus Arminius, que foi ministro ordenado em Amsterdã e, mais tarde, professor de teologia em Leyden. Tendo estudado em Genebra, em 1591 começou a duvidar dos princípios que lhe haviam ensinado até então. Cada vez mais convencido do erro dos mesmos, quando foi nomeado professor, começou a ensinar e a tornar público o que ele considerava ser a verdade, até falecer em paz no ano de 1609. Poucos anos após a morte de Armínio, alguns fanáticos, liderados pelo Príncipe de Orange, atacaram furiosamente a todos que afirmavam ou consideravam suas ideias. Tendo sido esse modo de pensar formalmente condenado no famoso Sínodo de Dort (menos numeroso e erudito que o Concílio ou Sínodo de Trento, mas tão imparcial como aquele), algumas dessas pessoas foram mortas, outras exiladas, algumas condenadas a prisão perpétua, todos eles perderam seus postos de trabalho e foram proibidos de ocupar qualquer cargo público ou eclesiástico.

6. As acusações apresentadas pelos opositores contra essas pessoas (normalmente chamadas de arminianos) eram cinco: (1) negar o pecado original; (2) negar a justificação pela fé; (3) negar a predestinação absoluta; (4) negar que a graça de Deus é irresistível, e (5) afirmar que é possível que um crente se aparte da graça.
À respeito das primeiras acusações, estas pessoas, se declaram inocentes. As acusações são falsas. Ninguém, nem o próprio João Calvino, afirmou a ideia do pecado original ou da justificação pela fé de maneira mais decisiva, mais clara e explícita que Armínio. Esses pontos estão, por tanto, fora de discussão; há acordo entre ambas as partes. Sobre isso, não há a menor diferença entre o Sr. Wesley e o Sr. Whitefield.

7. No entanto, há uma clara diferença entre os calvinistas e os arminianos em relação aos outros três pontos. Aqui as opiniões se dividem, os primeiros creem em uma predestinação absoluta e os últimos somente numa predestinação condicional. Os calvinistas afirmam que: (1) Deus decretou com caráter absoluto, desde toda a eternidade, que certas pessoas se salvariam e outras não, e que Cristo morreu por elas e por ninguém mais. Os arminianos afirmam que Deus decretou, desde toda a eternidade, tocante a todos que têm sua Palavra escrita, que quem crer será salvo; mas quem não crer, será condenado.[1] Para cumprir isso, Cristo morreu por todos[2], por todos que estavam mortos em seus delitos e pecados[3], ou seja, por todos e cada um dos filhos de Adão, já que em Adão todos morreram[4].

8. Em segundo lugar, os calvinistas afirmam que a graça de Deus que opera para salvação é absolutamente irresistível; que ninguém pode resisti-la assim como não se pode resistir a descarga elétrica de um raio. Os arminianos afirmam que, embora haja momentos em que a graça de Deus atue de maneira irresistível, contudo, geralmente, qualquer pessoa pode resistir (e assim se perder para sempre) a graça mediante a qual Deus desejava outorgar-lhe salvação eterna.

9. Em terceiro lugar, os calvinistas afirmam que um verdadeiro crente em Cristo não pode se apartar da graça. Os arminianos, diferentemente, afirmam que um verdadeiro crente pode naufragar na fé na boa consciência[5]. Creem que o crente não só pode cair novamente na corrupção, mas que essa queda pode ser definitiva, de modo que se perca eternamente.

10. Esses dois últimos pontos, a graça irresistível e a infalibilidade da perseverança, são, sem dúvida, a consequência natural do ponto anterior, a predestinação incondicional. Se Deus decretou com caráter absoluto, desde a eternidade, que só se salvariam determinadas pessoas, isso significa que tais pessoas não podem se opor a sua graça salvífica (pois de outro modo perderiam a salvação), e visto que não podem resistir, tampouco podem se desviar dessa graça. De modo que, finalmente, as três perguntas são reduzidas a uma: A predestinação é absoluta ou condicional? Os arminianos creem que é condicional; os calvinistas, que é absoluta.

11. Acabemos, pois, com toda essa ambiguidade! Acabemos com as expressões que só servem para criar confusão! Que as pessoas sinceras digam o que sintam, e que não se brinque com palavras difíceis cujo significado se desconhece. Como é possível que alguém que não leu uma única página escrita por Armínio saiba quais eram suas ideias? Que ninguém levante a voz contra os arminianos antes de saber o que esta palavra significa, só então saberá que arminianos e calvinistas estão no mesmo nível. Os arminianos tem tanto direito de estar irados com os calvinistas como os calvinistas com os arminianos. João Calvino era um homem estudioso, piedoso e sensato, igual a Jacó Armínio. Muitos calvinistas são pessoas estudiosas, piedosas e sensatas, igual a muitos arminianos. A única diferença é que os primeiros afirmam a doutrina da predestinação absoluta, e os últimos, a predestinação condicional.

12. Uma última palavra: Não é dever de todo o pregador arminiano, primeiramente, nunca utilizar em público ou em privado, a palavra calvinista em termo de descrédito, tendo em conta que isso equivaleria a por rótulos ou julgamentos? Tal prática não compatível com o cristianismo nem com o bom senso ou os bons modos. Em segundo lugar, não deveria fazer tudo o que está ao seu alcance para impedir que o façam os ouvintes, demonstrando-lhes que isto é um pecado e uma tolice? Não é, assim mesmo, dever de todo o pregador calvinista, primeiramente, nunca utilizar em público ou em privado, a palavra arminiano em termo de descrédito? E em segundo lugar, não deveria fazer tudo o que está ao seu alcance para impedir que o façam os ouvintes, demonstrando-lhes que se trata de um pecado e uma tolice ao mesmo tempo? No caso de já estarem habituados a fazê-lo, maior empenho e esforço deverá se por para erradicar essa conduta que, talvez, tenha sido encorajada pelo próprio exemplo do pregador!
Notas:
[1] Mc 16.16 [2] 2 Co 5.15 [3] Ef 2.1 [4] 1 Co 15.22 [5] 1 Tm 1.19
Créditos ao blog – Personaret – Disponível em: http://perspectivasarminianas.blogspot.com/

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