sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A ressurreição NA morte


...e foi assim
que naquela madrugada de um agosto frio
a pessoa vibrante da Raquel
aprumou-se ereta
colocou-se no ponto de extrema tensão
do arco de sua vida
mirou com mil cuidados o seu alvo
e flechou verticalmente o Céu
em busca do Infinito


Minha filha Raquel, falecida em 21 de agosto de 2010, ressuscitou NA morte. Faço esta afirmação com plena convicção e segurança, fundamentando-me na minha Fé e nos estudos dos mais renomados teólogos e exegetas de nosso tempo, tais como Troisfontaines, A. Boros, Karl Rahner, Betz, Boff, Queiruga, J.B. Libânio, Hans Küng, Blank, Bingemer, Galvin, Fiorenza, J.L. Segundo, e o Novo Catecismo Holandês, citando apenas estes para não me alongar demais. O interessante é que não encontrei, sobre este tema, nenhum teólogo ou exegeta protestante, e muito menos daqueles  que lêem a Bíblia ao pé da letra, esquecidos de que é o espírito que vivifica, e não a letra, que é contingente e passa com o fluir dos tempos.
Os textos bíblicos não caíram já prontos do céu como um meteorito, nem foram "ditados" por Deus. Seus autores foram, sim, inspirados por Deus a escrever, mas utilizando as ferramentas e os conhecimentos de que dispunham, dentro de seu tempo, da mentalidade da época e das suas próprias limitações culturais e intelectuais, há pelo menos dois mil anos passados. Portanto, dentro de seu espírito, e não da letra, é preciso atualizá-los e torná-los condizentes com os tempos atuais, com os novos conhecimentos e investigações, e com as necessidades diferentes em que vivemos.
Lendo-se os textos bíblicos de modo fundamentalista, ao pé da letra, costuma-se falar de um "tempo intermediário" entre a morte e a ressurreição. Se este tempo intermediário realmente existir, então o primeiro homem ou mulher que morreu há centenas de séculos atrás continuará a esperar sua ressurreição por outras centenas de séculos, o que me parece um absurdo. Com os teólogos e exegetas acima citados, não posso aceitar esse tal tempo intermediário, lembrando que se fala num final dos tempos, mas Deus não está sujeito ao tempo, pois é um "hoje" eterno, um eterno presente. 
Se a morte, conforme as agudas análises de Leonardo Boff e outros é o momento de total redimensionalização das possibilidades contidas na natureza humana, então nada mais lógico do que afirmar que é exatamente aí na morte que se realiza a ressurreição.  NA morte, nem antes nem depois.
Não é a alma que vai para o céu ou para o inferno após a morte física. Quem vai para o céu ou para a morte eterna é a "pessoa humana" na sua integridade ontológica, corpo e alma, corpo este agora despido de seu invólucro carnal e tornado "corpo espiritual", na bela e feliz intuição do apóstolo Paulo. A dicotomia corpo e alma, que podem separar-se, indo na morte cada qual por um lado, é herança da antropologia platônico-grega, dentro da qual surgiu o cristianismo e que a assumiu. Segundo esta antropologia, na morte haverá uma separação radical entre o corpo e a alma; depois da morte a alma subsistiria separadamente, enquanto o corpo pereceria. Essa formulação tão clara e tradicional era uma tentativa sincera para se fazer idéia concreta dos dados bíblicos. Não assim para a antropologia semita, judaica e bíblica, segundo a qual corpo e alma constituem uma unidade essencial e indivisível na pessoa humana. Aliás, a própria Bíblia jamais concebe a alma totalmente separada de qualquer corporeidade. Essa é também a convicção dos maiores teólogos e exegetas modernos, diante da evidência de que o "eu" pessoal do homem e da mulher se relaciona tão intimamente com o seu corpo, que não podemos conceber um "eu" isolado, sem nenhum liame com esse mesmo corpo.
“Se, na história do pensamento moderno, as tradicionais concepções da alma como uma substância fundamentalmente distinta do corpo e separável da ligação com ele na morte, como poderia a vida da alma condicionada em todos os detalhes por processos e órgãos físicos ser separada do corpo e continuar subsistindo sem  ele? Alma e corpo são considerados pelas correntes mais influentes da moderna antropologia aspectos constitutivos e inseparáveis da unidade de vida humana, não redutíveis um ao outro. Alma e consciência estão profundamente enraizadas na corporeidade do homem e da mulher, assim como, inversamente, o corpo humano não é um corpo morto, mas animado em todas as manifestações de  vida”. ( Pannenberg, "Teologia Sistemática II").
De acordo com Gênesis 2,7, a alma não é apenas princípio de vida do corpo, mas é o próprio corpo animado, o ser vivente como um todo.
A ligação entre corpo e alma na unidade de vida do homem e da mulher foi acentuada nos teólogos cristãos-primitivos especialmente em conexão com a argumentação apologética a favor da esperança cristã da ressurreição. De acordo com eles, a destinação de homem e de mulher para a vida eterna vale, na intenção do Criador, para todo homem  e toda mulher. Por isso também seria necessária uma ressurreição do corpo, pois a alma em si mesma, não é nem homem nem mulher, em definitivo.
- "Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso", disse Jesus ao seu companheiro de cruz. "TU ESTARÁS" - esta frase, na sua ênfase positiva e direta, refere-se gramatical e logicamente à PESSOA na sua integralidade ontológica, e não à alma ou espírito. Quanto aos católicos, quero lembrar que no mesmo dia em que choro o primeiro ano de falecimento da Raquel, neste mesmo dia também eles comemoram a "assunção" de Maria ao Céu; "assunção", outro nome para ressurreição na morte...
A morte significa o fim do mundo para a pessoa. Pela morte se entra num modo de ser que elimina as coordenadas de tempo e de lugar. Já a partir deste ponto de vista não se pode mais afirmar qualquer tipo de "espera" (= tempo intermediário) de uma suposta ressurreição no final cronológico dos tempos. Isto não passa de uma representação antropomórfica da realidade, inadequada àquele modo de existir do ser humano, dentro da antropologia semita e bíblica. Por isso é que nas teologias joanina e paulina a ressurreição se apresenta como uma realidade já crescendo dentro do homem e da mulher. A morte lhes confere plenitude, porque o mesmo Espírito que ressuscitou Jesus de Nazaré dará também vida nova aos nossos corpos mortais.
O apóstolo Paulo já colocava em 1 Cor 15, 35s como será o corpo ressuscitado. Com ele, devo dizer que o "eu" pessoal (que sempre inclui necessariamente uma relação intrínseca com todo o cosmos) será ressuscitado e transfigurado em corpo espiritual. Na morte cada qual terá o corpo espiritual que merecer; ele será a perfeita expressão da interioridade humana, sem as estreitezas e as limitações que envolvem nosso presente corpo carnal, que vai para o túmulo. O corpo glorioso, espiritual, terá as qualidades do homem/mulher-espírito que são de universalidade e ubiqüidade. Já os gregos antigos, com Aristóteles, diziam que pelo espírito homem e mulher são de alguma forma todas as coisas existentes.
O corpo transfigurado será em plenitude aquilo que em sua expressão temporal já realiza em deficiência: comunhão, presença, relacionamento com o universo. Portanto a ressurreição manterá a identidade pessoal de nosso corpo. Mas não sua realidade material, carnal, que varia de sete em sete anos, como nos diz a ciência biológica.
No termo da vida terrestre homem e mulher deixam atrás de si um cadáver. É como o casulo da lagarta que possibilitou o emergir radiante da crisálida ou da borboleta; assim homem e mulher agora livres no horizonte infinito de Deus.
A que estão eles destinados? A Fé cristã responde com extrema jovialidade: para a vida ressuscitada do homem e da mulher corpo-espírito. O fim dos caminhos de Deus é este novo homem e esta nova mulher, agora glorificados, em comunhão íntima com Ele, com seus irmãos e com todo o cosmos, numa simbiose maravilhosa de coparticipação.
Choro hoje a ausência física de minha filha Raquel entre nós, mas louvo a Deus por tê-la ressuscitado NA sua morte, dando a ela a beatitude e a vida que não mais terá fim, na eternidade do Pai de todos nós.

Professor Aroldo

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