quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Um depoimento pessoal


A morte recente de minha filha Raquel provocou-me uma perigosa depressão, e eu só consegui em parte livrar-me dela pela oração, pelo estudo e pelas constantes leituras, mas considerei que isto não seria suficiente para a volta à normalidade. Veio-me então a idéia de que escrever, libertar-me de minhas angústias através do diálogo com eventuais e compreensivos leitores, me faria muito bem, e é o que tento realizar agora.
Comecei a escrever semanalmente num blog de um ex-aluno meu em Barbosa Ferraz, cidade em que residi e lecionei por trinta anos ininterruptos. Esse blog, entretanto, era de cunho eminentemente político, e eu me senti desambientado nele, pois meus textos, em temática bíblica e teológica, batiam de frente com ele, e me decidi a procurar outro.
Antes de começar a colaborar com o Blog da Vida Eterna, editado pelo meu filho Carlos, pesquisei quase uma centena de blogs tanto evangélicos como católicos, e foi difícil encontrar um que satisfizesse minhas convicções religiosas (= "cristão anônimo", como diria o renomado teólogo Karl Rahner...). A maioria deles, os evangélicos, trazia mensagens de um sectarismo rançoso e ultrapassado, centrado no ataque ao espiritismo e ao sexismo; nas querelas estéreis entre calvinistas e arminianos, ou entre pentecostais e neopentecostais; nas refutações apologéticas às doutrinas contrárias sempre consideradas heréticas e contrárias à Bíblia, e que precisariam ser combatidas; quase sempre com uma leitura  bíblica ao pé da letra, o que não condiz mais com a exegese moderna e sua constante investigação e abertura para novas perspectivas interpretativas. 
De sua parte, os blogs católicos, defendendo posições tradicionalistas e completamente superadas pelas grandes reformas e transformações profundas realizadas no catolicismo pelo Concílio Vaticano II, que incorporou em suas decisões de maneira muito positiva várias exigências feitas por Lutero e outros reformadores, por ocasião da Reforma Protestante.
A bem da verdade sou forçado a dizer que as decisões desse Concílio foram muito além da Reforma Protestante a qual, no meu entender, não atingiu plenamente seus objetivos, e hoje, em vários aspectos e setores, na confissão de muitos de seus líderes, parece pior do que a Igreja Católica daquela época porque, entre outras coisas, com a carência de um magistério central e por professar a doutrina do livre exame na leitura da Bíblia, com uma pretensa e duvidosa assistência do Espírito Santo, propiciou a proliferação exacerbada de seitas de todos os matizes doutrinários, centradas na busca de prosélitos por meio de pregações com ênfase em milagres, curas, sessões de exorcismos, posições doutrinárias antagônicas, muitas delas procurando primordialmente vantagens financeiras na transformação de seus templos em verdadeiros supermercados da fé, deixando de lado a preocupação de autêntica evangelização bíblica fundamentada numa sadia exegese das Sagradas Escrituras.
O que se vê quase diariamente em suas pregações públicas, pelo rádio e pela televisão, nas madrugadas, é um biblicismo e uma bibliolatria que mais confunde do que orienta os fiéis.
Em meus textos, no Blog da Vida Eterna, procuro envolver-me num ecumenismo positivo, que me parece constituir o grande anseio de uma parte ponderável da ecumene cristã nos dias de hoje.
Com efeito, nestes nossos tempos de globalização, de abertura de fronteiras e de intercâmbios internacionais em todos os setores da atividade humana, há também um clamor em várias confissões religiosas, englobando a Igreja Católica, a Luterana, a Anglicana, a Ortodoxa, a Copta e outras denominações cristãs, para o fim do sectarismo, das disputas apologéticas, dos confrontos doutrinais e dos preconceitos de parte a parte, entre todas as confissões.
A Igreja Católica, a Igreja Ortodoxa e as Igrejas tradicionais da Reforma já vêm há muito tempo dialogando em vista de um ecumenismo objetivo e sadio, que leve o Cristianismo a um "Credo" comum (respeitada a identidade específica de cada confissão), e a uma atuação evangelizadora calcada na difusão da Palavra de Deus, sem a preocupação de proselitismo e de pregações sectárias e divisionistas.
É sobejamente sabido que as confissões minoritárias (como as centenas existentes no Brasil) não vêem com bons olhos o ecumenismo, por muitos e variados motivos. Mas se todas as confissões cristãs têm o Senhor Jesus como meta de suas pregações, como Salvador e Redentor do gênero humano pela Sua vida, mensagem, paixão, morte e ressurreição, como único mediador da salvação querido por Deus, como aquele que revelou o verdadeiro rosto de Deus misericordioso e Pai - se todas estão unidas em torno destes termos - não seria mais do que justo que se termine com as querelas e dissensões sectárias, e se parta para uma atmosfera de paz, de colaboração e de compartilhamento em todos os setores em que atuam as várias denominações religiosas?
Este é o meu ponto de vista, certamente contestável para muitos e sujeito a sérias críticas, mas calcado em muito estudo e constante reflexão, sob a guia dos mais renomados teólogos e exegetas de nosso tempo. Neste sentido é que continuo colaborando com o Blog da Vida Eterna, e eventualmente em outros, sem conotações confessionais, mas apenas por meio de ensaios com fundamentação bíblica e teológica.
Uma coisa faço questão de salientar: sinto-me agora bem melhor psiquicamente, quase livre totalmente da depressão, tomei gosto por escrever e dialogar com eventuais leitores, o que para mim é uma libertação e uma catarse. Além disso, quem escreve aprecia ser lido e... Principalmente, criticado!
A crítica, quando feita com objetividade e em sentido positivo, é por mim muito bem recebida, pois com toda certeza ela propiciará uma correção de rumos e um melhor e mais duradouro compromisso com a verdade, que é o que realmente me importa.

Professor Aroldo

3 comentários:

  1. Kátia comentou a notícia Um depoimento pessoal.

    É estranho...
    A morte é a única certeza que temos nessa vida....
    Não sabemos se seremos ricos, se teremos filhos, se seremos felizes....mas...a morte é certa, um dia virá para todos.
    E nunca nos sentimos preparados para recebê-la...É ai que vemos o quanto nos apegamos à matéria.
    Por mais difícil que possa ser, procuro ver essa separação como uma longa viagem.Ficam as lembranças e uma contundente saudade.Por isso procuro viver como se fosse meu último dia.Não é fácil...Requer treino e persistência.
    Meu carinho...

    ResponderExcluir
  2. A MORTE para mim é a extensão da VIDA noutras paragens.
    Morre-se aqui, na TERRA e dependendo dos seus feitos, do seu preparo e EVOLUÇÃO você vai ganhando outras formas de aprendizado num outro lugar.
    E esta visão que tenho não é fruto desta ou daquela doutrina, mas sim de algo que é latente em mim desde muito cedo.
    Eu sempre senti que vivo aqui, mas não sou daqui.
    Este mundo material tem um propósito do CRIADOR para mim, mas este mundo não me encanta e nem me faz dizer que não quero morrer nunca.
    Morremos para começar outra etapa.
    Silencia-se um ciclo para dar lugar a outro.
    Depois de tudo passado será permitido a nós e aqueles que somos afins, na alma, um grande reencontro.
    A separação existe em todos os níveis, mas não se encerra nunca.
    Se for-nos permitido este reencontro ele ocorrerá.

    Vivo feliz na esperança de que somos ETERNOS de ESPÍRITO e a cada dia alcançamos um espaço melhor...
    Lindo seu depoimento.
    Meu respeito e sentimento perante sua declaração pessoal.
    Abraço

    ResponderExcluir
  3. Que bom que encontrou neste veículo uma forma de expressar sua dor. E está fazendo isso de uma forma muito salutar. Seus textos são despidos dos ranços xiitas de todas as denominações que querem mostrar a 'sua' verdade como absoluta.
    Parabéns.
    Deixo um grande abraço!

    ResponderExcluir