sábado, 5 de maio de 2012

Da liberdade

Na modernidade, atribuiu-se o nascimento e o fortalecimento do conceito de liberdade aos gregos. Com o surgimento da modernidade, a Igreja já se havia transformado numa fortaleza de ortodoxia e a obediência havia se tornado o principal sinal do cristão. Durante séculos os cristãos lutaram contra tudo o que lembrasse liberdade.[1]
Não obstante isso, a fonte principal do conceito contemporâneo de liberdade é o cristianismo. Os gregos haviam formado um conceito de liberdade e o exaltaram como típico da sua cultura política. No entanto, a liberdade grega era muito limitada e somente valia para uma minoria de privilegiados. A democracia ateniense seria considerada hoje uma aristocracia.
Quanto à filosofia grega: não confere importância à liberdade. Esta não está no centro da sua concepção de ser humano. Para ela, o ser humano define-se pelo pensamento, pelo conhecimento da essência das coisas, numa ascensão intelectual que pode chegar até o descobrimento de um Deus “único motor do universo”. O conceito atual de liberdade deriva da Bíblia e, sobretudo, do Novo Testamento. As expressões modernas são versões secularizadas do conceito cristão. Alguns reconhecem essa filiação. Muitos a ignoram e alguns a negam terminantemente. No entanto não existe outra fonte.
O ser humano participa da divindade no sentido de que é feito livre como Deus é livre. Para que a pessoa seja livre, Deus renuncia ao seu poder. Entrega o poder ao ser humano – juntamente com toda a criação – para que ele construa a sua vida com toda liberdade. Deus se retira para não se impor. A sua presença no mundo manifesta-se na vida e na morte de Jesus. Deus fez-se um crucificado para que o ser humano fosse inteiramente livre. Esta liberdade pode ser para o bem e para o mal. Não há liberdade se não houver possibilidade de escolha.
O desejo secreto de muitos é de que Deus nos retire a liberdade e governe o mundo ele próprio com o seu poder divino. Somente assim haveria paz e justiça na terra. Não haveria mais malfeitores nem guerras e destruições. No entanto, Deus escolheu outro caminho. Quantas orações são feitas pedindo a Deus que venha estabelecer a paz e a justiça! Mas essas orações permanecem sem resposta, uma vez que a resposta já foi dada. A paz e a justiça são da nossa responsabilidade. Somos uma humanidade livre chamada a se fazer por si mesma.
Muitos querem a liberdade que não façam depender de nada nem de ninguém – liberdade egoísta, individualista, que não se sente responsável por nada e por ninguém. Mas não querem liberdade quando se trata de responsabilidade, de construção de si mesmos e do mundo. Querem a liberdade sem responsabilidade e sem compromisso. Não querem a liberdade pela qual a humanidade se faz a si própria e se responsabiliza pela caminhada do mundo. Na liberdade há aspectos trágicos. Ao lado dos que constroem, há os que destroem. Ao lado das pessoas que procuram a vida, há as que procuram a morte. Deus fez uma aposta: acreditou na capacidade de liberdade que há no ser humano e envia o seu Espírito aos que aceitam ser livres.
“Vós, irmãos, é para a liberdade que fostes chamados” (Gl 5.13). “É para sermos verdadeiramente livre que Cristo nos libertou” (Gl 5.1). “Onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2Cor 3.17). “Se é o Filho que vos liberta, sereis realmente livre” (Jo 8.36).[2]
José Comblin
Fonte: A vida: em busca da liberdade, José Comblin. – São Paulo: Paulus, 2007. Pg 11, 12 e 13.
[1] Os textos mais contundentes foram a encíclica “Mirari vos” de Gregório XVI (1832); e o Syllabus de Pio IX (1864). Na prática muitos teólogos e atores sociais foram condenados por algum motivo sempre ligado à liberdade – quer a liberdade de pensar, quer a de agir na sociedade.
[2] Houve uma época em que os comentaristas de s. Paulo diziam que nesses versículos Paulo estava exagerando e que se devia relativizar essas afirmações tão radicais. Na atualidade, já não se permite tal arbitrariedade porque relativizar essas afirmações de Paulo é suprimir as teses fundamentais da sua mensagem.

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