quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Crianças famintas na Somália - A Vontade de Deus e a Responsabilidade humana

Em resposta a uma questão proposta pelo meu pai, professor Aroldo, no Blog do Mestre:  http://bloqdomestre.blogspot.com.br/2013/02/uma-questao-para-o-carlao.html, a questão é a seguinte:

“Todo domingo, eu, que sou católico, durante a Missa, na chamada "oração dos fiéis", milhões de crentes católicos no mundo inteiro, e eu entre eles, repetimos em coro orações parecidas com esta:

 - "Para que as crianças da Somália não mais morram de fome, roguemos ao Senhor. - Senhor, escutai a nossa prece."

Eu não posso negar, em absoluto, nem a boa vontade nem a intenção subjetiva com que se fazem estas preces, mas é inegável que no seu sentido objetivo está implícita uma imagem horrivelmente pervertida de Deus. Na mais elementar lógica humana, é evidente que essa prece ou não significa nada - não tem sentido - ou, em caso contrário, está implicando que, se as crianças da Somália continuam morrendo de fome, é porque Deus nem quis escutar as preces da Igreja, ou nem sequer tem piedade dessas pobres crianças. Como explicar essa antinomia?
“Aroldo, pai do Carlos”.

Para poder oferecer uma resposta à altura da questão e do seu formulador, solicitei um prazo de três semanas para poder pesquisar e formatar a resposta. Meditando, concluí que, a melhor forma de responder, seria dividir a resposta em tópicos, estes tópicos juntos, creio, responderão a questão proposta.

A Somália

Quem acompanha o que acontece hoje em dia na Somália, pode até não acreditar, mas, o país já foi na antiguidade, um importante  centro comercial. Seus marinheiros e mercadores eram os principais fornecedores de incenso, mirra e especiarias para os antigos egípcios, fenícios, micênicos e babilônios, com quem negociavam.

Como a Somália passou de centro comercial importante a um país devastado pela miséria, fome e corrupção?

Em 1986 o presidente da Somália Mohamed Siad Barre, começou a atacar clãs que eram contrários ao seu governo, o que fez com que se instalasse no país uma revolução contra o regime repressivo de Siad Barre. Em 26 de janeiro de 1991 ele foi deposto do poder.

Após a queda de Siad Barre, o país foi tomado pelos “senhores da guerra” que tomaram conta do país, esfacelando assim o governo central. Desde então, a Somália vive em guerra civil intermitente, a qual matou dezenas de milhares de somalis. Não existe mais unidade nacional, e o país fragmentou-se em regiões.

A maior parte da economia foi devastada na Guerra Civil Somali. A agricultura é o setor mais importante, com a criação de gado respondendo por cerca de 40% do PIB e por cerca de 65% das exportações. Grande parte de sua população que vive da criação de gado é nômade ou seminômade. Além do gado, a banana é outro importante item de exportação. O açúcar, o sorgo, o milho e os peixes são produtos para o mercado interno.

O pequeno setor industrial se baseia no processamento de produtos agrícolas, e responde por 10% do PIB, a maioria das instalações industriais foi fechada por causa da guerra civil.
A Somália tem uma das mais altas taxas de mortalidade infantil do mundo, com cerca de 10% das crianças morrendo pouco depois de nascer e 25% das sobreviventes morrem antes dos 5 anos de idade. A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras considera a situação do país "catastrófica".

O Pecado

Deus não faz o homem pecar, mas permite que o homem peque. O homem, e não Deus, é a causa do pecado e por essa razão o homem é responsável pelo pecado e pelas suas consequências.

Por que o homem peca? É porque ele quer, porventura, fazer a vontade de Deus? Não, nunca assim. Por que os homens crucificaram a Cristo? Porque creram que Deus o mandara para morrer como um porta-pecado? Não, foi porque eles o odiaram. Crucificaram-O por motivos ímpios. É assim sempre que o homem peca. O pecado procede do amor do homem às trevas: (1)

“E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” (Jo 3:19).

Deus é bom, e criou o homem com uma qualidade chamada liberdade. A liberdade do homem no princípio era essencialmente positiva – para comunhão com Deus, para trabalho grato e produtivo, para participação nas boas coisas da criação. Não havia obstáculo no caminho do homem no desfrutar de tudo isso.

Ao homem em sua situação original foi concedida a liberdade de decidir em relação à vontade de Deus. Embora sua liberdade fosse orientada para Deus, não havia compulsão. O homem poderia mover-se em outra direção. Ele podia desobedecer a Deus e romper sua própria existência criada fazendo o que Deus proibia, ou seja, comendo da:

“Árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2:9).

Por outro lado, ele podia rejeitar essa árvore e só conhecer o bem por meio de sua obediência contínua.

Isso mostra que a liberdade não pode ser algo coagido, caso contrário não há substância nela. Mesmo que o homem seja orientado para Deus e sua liberdade dada por Deus o capacite a ter comunhão com Deus e a fazer a sua vontade, ele não é compelido por sua orientação. Ora, embora ele possua essa elevada liberdade de obedecer à vontade de Deus, a desobediência, por mais que estranha à liberdade genuína não está banida. Tão certo quanto a liberdade é um fato, ela deve conter uma decisão genuína. Se não há opção, senão fazer a vontade de Deus, a liberdade é só uma palavra.

Assim, da desobediência nasce o pecado, pois, o pecado nada mais é que desobedecer a Deus.

O Mal

O mal não é uma entidade real, mas a corrupção real em uma entidade real. (2)

Tal qual uma ferrugem que corrói o metal, o mal não é algo em si só. O mal existe somente em companhia de outra coisa, mas nunca sozinho. A ação do homem  corrompido é que transforma a possibilidade do mal em algo real.

Como eu disse no tópico sobre o pecado, Deus jamais obrigaria o homem a escolher livremente o bem, porque a liberdade forçada seria uma contradição à Sua Palavra. Portanto, Deus não pode destruir literalmente o mal sem aniquilar a liberdade do homem, o seu livre-arbítrio. A única maneira de destruir o mal seria destruindo o bem do livre-arbítrio.

Nós temos que entender que parte do mal é produto do bem e que Deus é capaz de extrair coisas boas do mal. Certamente, Deus tinha um bom propósito para criar a água (sustento da vida), mas afogamentos são uns dos subprodutos malignos. Assim, nem todo afogamento precisa ter um bom propósito, apesar de a criação da água ter tido.

Não podemos esquecer que Deus ainda não terminou a sua obra e que a Bíblia promete que algo melhor ainda está por vir.

A Vontade de Deus

Deus é soberano, monarca absoluto do universo criado. Ele é absolutamente livre para agir conforme deseja e de acordo com Sua própria natureza. Suas ações não são condicionadas por quaisquer outras considerações do que ser fiel a Si mesmo. Não existem obrigações, da parte de Deus, a qualquer pessoa ou coisa fora de Si mesmo. Não há nenhuma limitação imposta a Ele ou às Suas ações por qualquer pessoa ou coisa além de Sua própria vontade e atributos. Será que Deus em sua soberania deseja que o homem peque?

O Bispo José Ildo de Mello, da Igreja Metodista Livre, num texto de sua autoria chamado, “Será mesmo que Deus quis assim?”, pergunta, será que tudo, absolutamente tudo o que acontece é vontade de Deus? Será que a vontade de Deus acontece automaticamente nas nossas vidas? (3)

Ele continua - Por que é que Jesus nos ensinou a orar: “Venha a nós o Teu Reino, seja feita a Tua vontade aqui na Terra, assim como ela é feita no Céu”. Se a vontade de Deus fosse algo que se estabelecesse, que acontecesse de maneira automática, por que é que nós precisaríamos orar, pedindo a Deus que Sua vontade se realize? (4)

E ele responde – Jesus nos ensinou a orar, clamando e buscando a vontade de Deus, é porque, se não o fizermos, o resultado será diferente, ou seja, a nossa ação é bastante relevante (e perigosa) neste processo de construção do futuro. (5)

Sendo assim eu pergunto: Foi vontade de Deus que a Somália deixasse de ser um prospero posto comercial para chafurdar numa crise de miséria e corrupção? Foi vontade de Deus que os homens por cobiça e ganância brigassem pelo poder na Somália? É da vontade de Deus que por causa da guerra civil, causada pela cobiça e ganância dos homens, as crianças morram de fome na Somália?

A Resposta é não, para todas as perguntas a resposta é não. Deus não desejou que isso acontecesse, mas isso está acontecendo por causa das decisões humanas, decisões que contrariaram a vontade de Deus.

A Palavra de Deus diz que:

“Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus” (1Co 3:9).

Há muito, Deus decidiu que não iria construir este mundo sozinho, Deus escolheu realizar muitas coisas com a cooperação dos homens. Porém, eu creio que somente a oração dos fiéis que meu pai ouve e provavelmente repete todo domingo na missa em sua paróquia, lá em Curitiba não seja suficiente cooperação que Deus fala na passagem de 1 Coríntios 3:9.

Os verdadeiros responsáveis pela fome na Somália

O repórter Andrew Harding, da BBC de Londres, fez uma lista de dez aparentes responsáveis pela situação na Somália. Através da lista fica comprovado que é o homem e não Deus o maior responsável pela morte das crianças famintas da Somália.

1) Estados Unidos

Washington não quer nem pensar na possibilidade de dinheiro de ajuda humanitária ir parar nas mãos da milícia islâmica Al-Shabab, que controla grandes partes da Somália e tem elos com a Al-Qaeda. Isso resulta em uma atitude ambivalente na ajuda à Somália, que paralisa diversos programas de ajuda humanitária.

2) O Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP)

É a única organização com capacidade real de acabar com a fome, mas por conta de sua forte dependência do financiamento americano – e por motivos políticos – o WFP tem tido dificuldade em obter garantias para acessar territórios do Al-Shabab.

3) O Governo Federal Transitório da Somália

O governo interino, apoiado pelo Ocidente, é tão fraco, marginalizado e ausente da maioria dos territórios, que o papel mais importante que pode desempenhar é o de não atrapalhar as pessoas famintas.

4) O Al-Shabab

O Al-Shabab é uma organização “guarda-chuva”, e não coesa. Eles mataram agentes humanitários e bloquearam o acesso da ajuda internacional. O que mais pode ser dito?

5) A expressão “crise de fome”

Ou seja, o hábito global de apenas encontrar o sentido de urgência e o dinheiro para agir quando já é tarde demais. Se a comunidade internacional gastasse mais dinheiro e esforços em programas de longo prazo que criassem estruturas comunitárias, a crise de fome não teria ocorrido.

6) A Imprensa

A ONU produz uma montanha de documentos sobre crises, mas os políticos só decidem agir quando o assunto chega ao noticiário. A pergunta é: Por que a crise de fome na Somália demorou tanto a chegar ao noticiário?

7) O Quênia

O país vizinho fez pouquíssimos investimentos em infraestrutura e educação nas comunidades mais pobres, que não puderam se preparar quando chegou a seca.

8) O resto do mundo

A maior parte da África olha com indiferença para a crise, bem como o Oriente Médio e muitos outros países. Será isso uma resposta às falhas e à falência dos esforços humanitários na Somália nos últimos 20 anos? Ou má-vontade?

9) As Mudanças Climáticas

Todos compartilhamos a responsabilidade pelo fato de que – caso a ciência esteja correta – as secas se tornarão mais e mais comuns com as mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, é possível mitigar os efeitos dessas secas.

10) O Crescimento Populacional

É um fator crucial. Em áreas ao norte do Quênia, que faz fronteira a leste com a Somália, a população dobrou na última década. Disse à BBC um especialista em agricultura da ONU que a solução é fazer com que a explosão demográfica ocorra em áreas sustentáveis, e não, por exemplo, em Dadaab, maior campo de refugiados do mundo, que abriga no Quênia pessoas que escapam da pobreza somali.

Concluindo

Será que tudo o que já aconteceu e ainda está acontecendo na Somália foi ou é vontade de Deus? Se pararmos para pensar, se olharmos a situação com mais cuidado, poderemos reconhecer que tudo poderia ter sido diferente se as atitudes tomadas pelas nações, pelos homens, que agindo como cooperadores de Deus tivessem sido outras.

Não é só na Somália que existem crianças morrendo de fome. Segundo estatísticas, 35.000 crianças morrem diariamente por má nutrição e doenças passíveis de prevenção. A nossa compaixão não deve se limitar apenas aos famintos da Somália.

Jesus, no Evangelho de Lucas, mais precisamente em Lucas 4:18-27, destaca como sua missão, pregar as boas novas aos pobres, e, mais tarde, disse a João que os sinais do Reino incluem os pobres ouvindo as boas novas:

“Respondendo, então, Jesus, disse-lhes: Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho” (Lc 7:22).

Como isso nos afeta? Qual deve ser nossa reação diante do exemplo de Jesus?

Jesus nos chama para servirmos ao seu Reino; parte do que significa servir ao seu Reino é ir de encontro às necessidades humanas. A Bíblia  nos diz que Jesus deu a vida por nós e nos lembra de que devemos fazer o mesmo pelos nossos irmãos:

“Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos.
Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar as suas entranhas, como estará nele o amor de Deus?” (1Jo 3:16-17).

Se não nos engajarmos na luta para transformar a sociedade moralmente, exigindo dos líderes que estabeleçam a justiça para aqueles que estão sendo maltratados e oprimidos, a oração dos fiéis feita por meu pai e pelos membros da sua igreja, não passarão de palavras vazias, sem sentido.

Carlos Almeida

Citações:

(1) - Thomas Paul Simmons, D.Th. – A Responsabilidade Humana.
(2) - Norman L. Geisler – Deus Criou o Mal?
(3) - Bispo José Ildo de Mello – Será mesmo que Deus quis assim?
(4) - Idem
(5) - Ibidem

Referências:

- Thomas Paul Simmons, D.Th. – A Responsabilidade Humana.
- Norman L. Geisler – Deus Criou o Mal?
- Teologia Sistemática, Uma perspectiva Pentecostal – J. Rodman Williams – Editora Vida
- Mini Dicionário Aurélio – 6ª Edição – Editora Positivo
- Wikipédia.com
- Bispo José Ildo de Mello – Será mesmo que Deus quis assim?
- Bíblia on line – Disponível na Internet

2 comentários:

  1. Continuo com minha crítica: no Brasil há centenas de teólogos do mais alto gabarito, e Você os ignora, citando quase sempre apenas teólogos protestantes de língua inglesa. Serão eles os donos infalíveis da verdade religiosa? Acho que o "fundamentalismo" religioso é mais danoso para a religião, do que a própria irreligiosidade...

    Aroldo.

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  2. Pai,
    O texto é longo sim, mas como falar dos mistérios de Deus em poucas linhas?
    Quanto aos teólogos que utilizo em meus estudos e pesquisas, posso dizer apenas que a minha visão é protestante sendo assim utilizo como base de pesquisa os teólogos protestantes. Quanto a serem estrangeiros, para mim não faz diferença, se notar citei um teólogo brasileiro, o Bispo Ildo de Mello da Igreja Metodista Livre. Estou procurando conhecer todos os teologos relevantes de qualquer nacionalidade, e se nos meus escritos utiliza-los como fonte de pesquisa pode contar que os citarei.

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