domingo, 9 de novembro de 2014

Sobre o Dízimo - Rebatendo Arthur W. Pink

Recentemente no site http://palavraprudente.com.br  li um texto escrito por Arthur W. Pink (1886-1952) versando sobre o dízimo, traduzido por Benjamin Gardner, revisto e corrigido por Erci Nascimento.

Dizem que Pink foi um homem incompreendido em sua época. Que tinha uma sede pela descoberta da verdade. Verdade esta, que foi saciada de maneira errada, talvez pelos próprios caminhos que Pink trilhou em busca desta verdade.

Ele aos 16 anos abandonou o Evangelho e ingressou na Teosofia e no Espiritismo, tornando-se conhecido como praticante destas seitas. Sua conversão se deu segundo consta, pela citação por seu pai do versículo bíblico de Provérbios 14:12:

“Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte”.

Com esta pequena introdução sobre Arthur W. Pink, não quero de forma alguma desconstruir a sua história, mas quero deixar claro que assim como os espíritas tomaram de forma errada os ensinamentos do Evangelho para criarem as suas doutrinas, e por ser Pink um praticante já graduado e reconhecido, algumas destas interpretações distorcidas do Evangelho podem ter sido trazidas inconscientemente para as  suas interpretações já como cristão convertido, no caso esta sobre o dízimo.

1. O Dízimo

“Alguns assuntos na Bíblia causam muitas controvérsias, e dízimo é seguramente um deles. Por que isso acontece? Talvez porque vivemos em uma sociedade consumista, que tem o dinheiro como prioridade. Outros acham que a igreja é rica e já tem muita gente que dizima e, quando as nossas finanças melhorarem, ‘iremos dizimar’. Ou porque achamos que o dízimo é coisa do Velho Testamento, e agora estamos debaixo da Nova Aliança e não estamos mais debaixo da lei e sim, da graça. Certamente quando não estamos dispostos a crer na Palavra de Deus, vamos conseguir muita argumentação lógica para justificar nossa postura.”

O texto acima é de minha autoria, o escrevi como introdução ao tema “dízimo” num trabalho que fiz sobre a vida financeira dos cristãos, intitulado: “A Bíblia e a vida financeira”.

Ao ler o texto de Pink, voltei imediatamente aos meus velhos escritos da época em que me converti e escrevi o texto acima, sim, eu também já defendi a forma como o dízimo é “cobrado” dos fiéis. Ao rebater o texto de Pink, reconstruo o meu próprio posicionamento equivocado daquela época de neófito na fé cristã.

2. O dízimo no Antigo Testamento

Pink se utiliza de Gênesis 18:19 para “supor” que Deus fez uma revelação ao seu povo anterior À Lei dada no Sinai, e que esta revelação trata de três assuntos: 1. A Oferta de sacrifícios a Deus; 2. A observância do Sábado; 3. A doação de dízimos. Repito: trata-se de uma suposição de Arthur W. Pink.

O texto de Gênesis 18:19 faz parte de um contexto maior aonde Deus anuncia a Abraão a intenção de destruir Sodoma e Gomorra. O versículo 19 utilizado por Pink, fala que Deus escolheu e espera que Abraão ensine a sua descendência a trilharem o caminho do Senhor, praticando a justiça e o juízo. Podemos ler, e reler o versículo milhares de vezes que ele não nos dá margem para supor, como Pink supôs que ele versa sobre sacrifícios, sobre o sábado e sobre dízimos.

2.1. Melquisedeque

Pink escreveu: “Em Gênesis 14:20, está escrito “E deu-lhe o dízimo de tudo”. Abraão deu o dízimo à Melquisedeque. Nós não somos informados por que ele fez isso. Nos capítulos anteriores, não nos é dito que Deus lhe havia ordenado fazer isso, mas o fato de ele ter feito isso denota claramente que ele estava agindo de acordo com a vontade de Deus e que estava realizando aquilo que a mente de Deus lhe tinha revelado”.

Se Pink tivesse estudado um pouco mais a Bíblia, descobriria que Abraão agiu obedecendo ao que estava prescrito em Números 31, que parte dos despojos de batalha deveriam ser entregues ao Sumo Sacerdote, neste caso Melquisedeque.

Hebreus 7: 4 afirma que Abraão deu o dízimo dos despojos de guerra e não sobre o seu patrimônio (gado, ovelhas, lavouras)  ou dos rendimentos que o seu patrimônio geravam.

Devemos atentar também que fora esta ocasião, não há nenhum relato de que Abraão, antes ou depois deste episódio fizesse entrega de dízimo. Poderíamos “supor” que sim como fez Pink, ou também já que não existe menção alguma de tal proceder por parte de Abraão antes ou depois, poderíamos também “supor” que não, que este foi um episódio único e excepcional de entrega de dízimos antes da Lei Mosaica.

2.2. O dízimo de Jacó

Mais uma suposição de Pink, agora sobre Gênesis 28:19-22: “ Vamos começar pelo versículo 19 para obter o contexto: “E chamou o nome daquele lugar Betel.” Você se lembra das circunstâncias? Esta foi a noite em que Jacó estava fugindo de Esaú, tendo abandonado o seu lar, ele estava viajando para encontrar Labão; e naquela noite, enquanto estava dormindo, ele teve uma visão. “E Jacó fez um voto dizendo: Se Deus for comigo e me guardar no caminho que vou seguindo e me der pão para comer e vestes para vestir, de modo que eu volte em paz à casa do meu pai, então o Senhor será o meu Deus, e esta pedra que tenho posto como coluna será a casa de Deus, e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo”. Aqui, novamente, temos o dízimo. Jacó prometeu que em troca de bênçãos temporais do Senhor à ele, ele devolveria um décimo ao Senhor. Não nos é dito por que ele escolheu esse percentual; nem por que ele deveria dar o dízimo. Contudo, o fato de ele ter decidido fazer assim sugere que, anteriormente, Deus, tinha revelado a Sua mente às Suas criaturas, e, particularmente, para o Seu povo, que um décimo de sua renda deveria ser dedicado a Ele, o doador de tudo que elas possuíam”.

O que Jacó fez foi uma barganha com Deus. “Se” Deus lhe fizesse o que ele desejava, ele daria a décima parte de tudo o que ganhasse a Deus.

Apesar de Jacó ter feito este voto, esta tentativa de barganhar com Deus, não existe na Bíblia nenhum relato de que Jacó cumpriu a sua parte no trato, devolvendo o dízimo.

Outro aspecto a ser observado é que Deus anteriormente havia feito uma aliança com Abraaão, Isaque e Jacó e lhes fez promessas que cobriam todas as áreas de suas vidas, “e” nada exigiu deles, além da fé.

Jacó ao ver-se em um momento de dificuldade esqueceu-se ou não creu nas promessas de Deus e com Ele tentou barganhar. Isso de forma alguma é um princípio para a obrigatoriedade da oferta do dízimo.

3. O dízimo na Lei de Moisés

Pink defende que na Lei dada a Moisés por Deus, existia a obrigatoriedade do dízimo e que isto seria a base para que o mesmo continuasse acontecendo nos dias atuais. Se deixarmos de lado a Nova Aliança feita através de Jesus, em que tudo se fez novo, em que tudo o que era velho deixou de ter validade e um novo relacionamento de Deus com o seu povo foi estabelecido, Pink até poderia estar certo quanto a esta obrigatoriedade, porém há uma distinção muito grande entre o dízimo da Lei de Moisés, com o tipo de dízimo que Pink procura defender no seu trabalho.
O Pentateuco mostra as três formas de dízimo previstas na Lei Mosaica, e verifica-se que todos eles estavam ligados a atividade na terra, quer fossem plantações, quer fossem gado e ovelhas: 1. O dízimo dos Levitas; 2. O dízimo do festival, e era “consumido” no santuário em Jerusalém; 3. O dízimo dos pobres.

3.1. Dízimo para os Levitas

Os Levitas foram escolhidos por Deus para exercerem todos os serviços na tenda que guardava as Tábuas da Aliança, e sendo assim não receberiam por herança parte das terras que Deus prometeu e distribuiu ao povo e por isso o povo deveria retribuir aos levitas como recompensa por este serviço o dízimo, ressalte-se mais uma vez que o dízimo não era em dinheiro e sim mantimentos.
Dos dízimos recebidos do povo os levitas deveriam dar uma parte ao sacerdócio de Arão.

3.2. Dízimo do Festival

O dízimo do festival era uma espécie de confraternização entre as famílias judias, não estava aberto aos gentios,  Todos deveriam trazer o dízimo de suas terras a um local escolhido pelo Senhor, as pessoas não poderiam comer o dízimo em suas próprias terras e sim neste local previamente escolhido pelo Senhor. Fica bem claro que o dízimo era para ser comido pelo povo, não era e nem nunca foi em dinheiro.

3.3. Dízimo dos pobres

A cada três anos os frutos do trabalho do povo judeu deveria ser separado para ser comido pelos Levitas (que não tinham parte na herança das terras), pelos pobres, pelas viúvas e estrangeiros para que comessem até se fartarem. Era uma forma de se fazer justiça social.

4. O dízimo em Malaquias

Pink escreveu: “Agora vire para o último livro do Antigo Testamento. Malaquias nos leva a um ponto ainda mais tarde, e mostra-nos como o remanescente que havia retornado nos dias de Neemias também havia degenerado, se deteriorado e tinha abandonado a Palavra da Lei do Senhor. Entre outras coisas, observe as acusações que Deus traz contra Israel em Malaquias 3:7 e 8. “Desde os dias de vossos pais vos desviastes dos meus estatutos, e não os guardastes. Tornai vós para Mim, e Eu tornarei para vós, diz o Senhor dos exércitos. Mas vós dizeis: Em que havemos de tornar? Roubará o homem a Deus? Todavia vós me roubais, e dizeis: Em que Te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas”. Quão sombrio é notar que neste penúltimo capítulo do Antigo Testamento, nós somos ensinados que aqueles que retêm o “dízimo” de Jeová são acusados de terem roubado a Deus! Sombrio, de fato!”

No tempo de Neemias o povo de Deus por várias vezes e por motivos diversos, havia negligenciado a entrega dos dízimos aos Levitas e aos sacerdotes e, portanto não há qualquer dificuldade em entender o texto de Malaquias citado por Pink no texto acima: A entrega dos dízimos sobre os produtos da terra para os levitas faziam parte da Aliança de Deus com o povo de Israel, eram parte das lei cerimoniais e era uma obrigação do povo. O povo estava desobedecendo a uma ordem de Deus. E Deus através de Malaquias os adverte que estavam roubando o que era de Deus, simplesmente isso, um caso não de doação de dízimo, mas sim de desobediência às leis de Deus, não há relação alguma com os cristãos que estão debaixo da Nova Aliança.

5. O dízimo no Novo Testamento

Pink cita Cristo em Mateus 23:23 para afirmar que o dízimo que ele afirma ser normativo no Antigo testamento continua valendo no Novo: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas”.

Bastaria aqui a simples constatação de que Jesus ainda está na vigência do Antigo Testamento, operando nele ainda. O Novo Testamento só se inicia com a Sua morte, ressureição e Pentecostes. Lembram quando Jesus curou o cego? O leproso? Então, após curá-los Jesus os mandou ao templo e mostrarem-se ao sacerdote. Jesus nunca mandou um gentio curado por ele apresentar-se ao sacerdote, Ele estava cumprindo o que a Lei, que ainda estava valendo previa. Jesus nesta passagem estava simplesmente mandando o fariseu fazer aquilo que a Lei mandava e não endossando o dízimo no Novo testamento.

6. Conclusão

A segunda parte dos escritos de Pink trata-se de meras suposições sobre o porque Deus criou o dízimo e supostas aplicações e soluções que a doação de dízimo pode realizar na vida dos crentes dizimistas, portanto, não me darei ao trabalho de rebate-las, deixo-as no âmbito do que são, meras suposições.

Quanto ao dízimo, creio que ficou clara que não existe tal obrigatoriedade por parte de Deus para a cobrança, por isso exorto aos pastores, aos teólogos das igrejas que sejam justos e sinceros quando falarem do dízimo e da necessidade das igrejas terem recursos para sua manutenção. O ideal seria que ao final de cada mês as igrejas apresentassem um balanço de suas despesas e o valores fossem divididos proporcionalmente entre todos os membros.

Carlos Almeida

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