terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O Pastor e a Política Partidária

De um lado o VOTO e do outro ...

No Velho Testamento, ao escolher uma das tribos descendentes de Jacó, a de Levi, para trabalhar de tempo integral nos serviços religiosos, a visão de Deus era no sentido de que os levitas não tivessem herança na terra, senão as cidades em que habitassem (Js 14:4), pois os seus salários viriam dos trabalhos no Templo e do ensino da Lei do Senhor (Nm 18:21; II Cr 31:4). Muitas vezes eles exerciam o papel de juiz, logo tinham que ser imparciais (I Cr 23:4), quando isso não foi obedecido o povo entrou em decadência Ne 13:10-12.

Dificuldades e não poucas têm surgido na igreja local quando pastores resolvem participar da política partidária.

Depois de Israel ter se estabelecido como Estado, não me lembro de que na sua história, Deus tenha levantado algum descendente de Levi, para libertar o seu povo, quer no tempo dos juízes, quer no dos reis. Lembro-me sim, de que o início da derrocada de Saul foi desejar exercer o sacerdócio além de ser o Chefe Político da nação. Desconheço qualquer governante na história desse povo, fazendo as vezes de levita ou vice-versa (aí está um princípio: cada um segundo a sua vocação divina).

O que mais caracteriza um juiz é sua imparcialidade. Pelas leis brasileiras, um juiz para candidatar-se a algum cargo político partidário tem que primeiro renunciar à magistratura. Isto não significa pedir licença temporária, mas deixar de ser juiz - este é um princípio sábio, pois do contrário, a sua imparcialidade estaria comprometida.

Um pastor na sua igreja local é o fiel da balança; deve ser imparcial, qualidade essencial de um juiz. Na sua comunidade eclesiástica, um pastor é muitas das vezes, um juiz de fato.

Quando um pastor resolve filiar-se a um partido político, torna-se partidário e portanto, parcial. As circunstâncias ficam mais graves se houver um membro da igreja que é de outro partido, surgindo desse modo, facções na igreja, que trazem inexoravelmente sérios problemas para a saúde espiritual da mesma. Seria bom que a liderança evangélica de nosso país estivesse mais alerta para esse aspecto.

Entendo que os discípulos de Jesus devam ter as suas atuações político partidárias, esse é um papel precípuo do leigo, pois sal é para salgar.

O pastor pode e, se tiver condições, deve orientar as suas ovelhas sobre o perfil de um candidato, no que se refere ao caráter, competência e preparo para o cargo pleiteado. É muito importante, também, o pastor orientar o povo no exercício da cidadania, a essência de seus direitos e deveres; isto fará diferença para o Brasil no contexto das nações.

Os pastores, como levitas, podem ter um papel profético na história do nosso país, orando e aconselhando os nossos líderes políticos. Só aqueles que têm imparcialidade podem confrontar os reis e os poderosos.

Certa vez, estando em contado com um determinado irmão, pastor de uma grande igreja em Brasília, ele me disse que tinha sido convidado para concorrer a um cargo de Senador pelo Distrito Federal, mas sabiamente respondeu que não poderia porque já tinha sido eleito para um outro cargo, o de Ministro do Evangelho. Sei que ele tem orado e aconselhado vários políticos e, com isso, exercido o seu papel de levita.

Na prática, todos os pastores que conheci e conheço que se candidataram a algum cargo político, tiveram o seu ministério anulado ou seriamente comprometido. Desconheço ainda que algum tenha se tornado um expoente político da nação.

Entendo que somente aqueles que não são vocacionados trocam o seu ministério sacerdotal por um cargo político partidário.

Na nossa cultura quem melhor representa a igreja é o clero, um pastor filiando-se a um partido ele está automaticamente vinculando a congregação que ele lidera a esse partido, mas a igreja como instituição ela é suprapartidária, isto para evitar conflitos, esta é mais uma das razão que um pastor não dever ser filiado a um determinado partido político.

Nesta matéria, parece-me que, aqui no Brasil, a Igreja Católica tem sido mais sábia que a Evangélica, pois oficialmente não recomenda que seus clérigos se candidatem a cargos políticos partidários. A sua forma de influir na sociedade é por meio de entidades e políticos de sua confiança. Com isso, tem sido mais eficaz em suas ações, evitando, por conseguinte, desgastes que inexoravelmente viriam se tivesse candidatos oficias nas eleições públicas.

Ao aproximar-se de mais um pleito eleitoral, seria bom que os nossos líderes evangélicos procurassem entender melhor e aplicar esse princípio de um Estado Laico (Estado que não é dominado por religião), que sabiamente o nosso Deus já consignou há milhares de anos atrás.

Manoel Soares Cutrim 

Colaboração de Eliane Soares de Rezende.

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