terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O ‘Silêncio’ de Deus será mesmo real?

Professor Aroldo

- "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?"                                                                                   
- "E Deus não disse absolutamente nada...".

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Ocasiões há em que Deus parece me falar sem cessar; em outras, porém, Ele parece esconder-Se por detrás das nuvens nas profundezas do Céu, e eu  me vejo sozinho, quando precisaria da presença aconchegante do Criador junto de mim, principalmente, por ocasião das mortes de meus dois filhos queridos, a Raquel, de câncer, e o Júlio por um suicídio mal explicado.

Embora eu conheça dentro de minhas limitações de criatura finita e pecadora os desígnios gerais da Providência de Deus, ignoro completamente a realidade de Seus propósitos particulares a respeito de minha curta existência neste mundo.

Houve e há ainda aspectos de meu caminhar em que, de maneira dolorosa, me parece que sinto o peso da ausência de Deus em minha vida. Pois este período histórico em que estou vivendo parece testemunhar-me esta ausência ou este afastamento de Deus. Tenho até  a impressão de que vivo  num daqueles tempos de apocalipse, preditos pelos profetas.

Há guerras em várias partes do mundo. O terrorismo sem freios tem atacado alvos inocentes em vários países, espalhando o medo e fazendo milhares de vítimas.  Fenômenos naturais catastróficos assustam populações inteiras, destruindo cidades, habitações, e colocando homens, mulheres e crianças, justamente apavorados, quase sem capacidade de reações.

Enquanto isso  -  dizem-me os meios de comunicação  -  milhões de vítimas da fome morrem à míngua em algumas regiões de África e da Ásia, com maior impacto principalmente entre as crianças que, pela desnutrição endêmica, jazem quase sem esperança de sobrevivência. E, o sofrimento dos inocentes, isto é, das crianças, é algo com que não consigo me conformar, e até cometo o pecado de blasfêmia ao apostrofar a Deus, cobrando dEle, que confesso como Pai, por que é que é que Ele, todo-poderoso,  e sendo Pai, permite que crianças inocentes sofram tanto, como aquelas que sucumbem em hospitais, vitimadas pelo câncer?

Fiz esse questionamento a um padre de minha paróquia, e ele me respondeu que a pessoa mais inocente que surgiu neste mundo, Jesus, sofreu torturas indizíveis e morte de cruz. E eu lhe ripostei que Jesus tinha sim a natureza humana, e por isso estava sujeito ao sofrimento. Mas não consigo assemelhar o sofrimento dEle ao nosso porque, mesmo sofrendo na Sua pessoa humana, Ele tinha à Sua retaguarda, a divindade, e esta verdade modifica totalmente o Seu sofrimento em comparação com o nosso. (Não sei  se este pensamento está teologicamente correto, mas é o que penso).

Mas voltando ao assunto. Doenças misteriosas, provocadas por vírus, colocam países e povos em estado de emergência, assustando o mundo inteiro.

A Justiça torna-se uma caricatura em vários países dominados por oligarquias tirânicas e sanguinárias, que defendem a ferro e fogo sua permanência no poder, esquecidos das mais elementares normas de respeito às populações em busca de seus direitos calcados aos pés.

O custo de vida aumenta sem parar, países inteiros se debatem com sérios problemas econômicos, que atingem mesmo uma escala global. Um escritor da Europa central, Gheorghiu, chegou a publicar um livro a que deu o título de "A Vigésima Hora", no qual fotografa literariamente as tragédias que vivemos, profetizando que nem mesmo um Messias conseguiria salvar-nos.

A impressão que tenho seria de que nada mudou no mundo, mesmo com o surgimento do Cristianismo. Os próprios cristãos, apesar de sua Fé na Providência Divina, parecem sofrer mais que os outros; não são poupados pelos flagelos universais, e ao mesmo tempo acabrunha-os o sentimento de pecado que avassala o mundo, e acabam perdendo o ânimo diante da apostasia planetária.

Todos os dias lhes pedem para ser novos cruzados empenhados na salvação do que resta de bom em nossa civilização, mas eles não se sentem com forças ou preparados para isso. Ou quando a corrupção oficial, institucionalizada nos órgãos governamentais, torna homem e mulher desiludidos e imunes a qualquer indício de esperança.

"Silêncio de Deus", outro nome para traduzir a tragédia do Universo? Seria o homem, seria a mulher uma "paixão inútil", como diria o racionalista e ateu francês Jean Paul Sartre, na sua literatura e no seu teatro do absurdo?

A verdade é que o cristão parece não ter um minuto de trégua neste mundo. Os problemas surgem-lhe ao mesmo tempo de todos os lados. Este problema, por exemplo:

Certa família, muito religiosa, moradora do meu bairro, gasta uma pequena fortuna para levar um filho doente, numa peregrinação longínqua a um santuário famoso - Aparecida -  com a esperança de obter da Virgem Maria a cura de sua doença. Irmãos e irmãs, pais, avós, amigos, todos rezam, fazem novenas, as comunidades religiosas reforçam o pedido de cura com suas preces e penitências. Entretanto o menino não se cura e vem a falecer.

Mistério terrível. Posso, e devo mesmo dizer, que a Fé daqueles que tudo sacrificaram para obter a cura de um filho, sem ser atendidos, é especialmente colocada à prova por Deus. Mas, por que se cura um, e não se cura aquele outro?

Mal ouso  escrever estas linhas. Elas são verdadeiras. Mas para quem não experimentou em si mesmo semelhante desilusão, como eu e minha esposa sentimos com a morte precoce de nossa filha Raquel, vitimada por insidioso câncer, e pelo suicídio misterioso de nosso filho Júlio, as frases de consolo e de explicação assemelham-se às "tagarelices gratuitas de certas consolações sacerdotais."

Homem de Fé que eu gostaria de ser, na minha fraqueza de ser humano finito, pecador e contingente, acredito não pedir demais, suplicando muitas vezes ao Senhor Jesus, que me conceda uma dessas consolações visíveis com que minha alma, afinal de contas, possa saciar-se um pouco para recuperar as forças, Apesar de saber, pela leitura e meditação dos textos sagrados da Bíblia, que "Deus recusa essa consolação mesmo aos seus próprios amigos."

É uma verdade profunda, mas difícil. A Sagrada Escritura inteira a testemunha, e principalmente o Filho de Deus, Jesus Cristo, que à véspera de Sua morte pede que o Pai Lhe afaste esse cálice, mas, apesar de tudo o bebe, livremente, por amor!

                                                 
Profº Aroldo - Aroldo Teixeira de Almeida é professor aposentado do Quadro Próprio do Magistério Paranaense e bacharel em Teologia Dogmática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da Capital paulista. É também pai do editor deste blog.

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